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Sermão dos Passos

Caríssimos irmãos e irmãs no Senhor,

Paz a Vós!

Amanhã, por esta mesma hora teremos terminado de adentrar pelos umbrais do Tríduo Pascal. A celebração eucarística vespertina que faz memoria da Ceia do Senhor, verdadeiro preâmbulo dos três dias sacros, lê os últimos dias e horas do Senhor como “entrega”.

No banquete festivo com clima pascal, Jesus antecipa simbólico-sacramentalmente o que realizará existencialmente no alto da cruz. Ele entrega o pão e o cálice com vinho, como síntese de seu caminhar junto aos pobres e pecadores, no intuito de restituir-lhes o direito, a liberdade, a justiça e a dignidade de entes amados por seu Pai. Este amor, ele o leva ao extremo, como afirma o evangelho de João: “Amou-nos até o fim…”

 

O extremo do amor de Cristo é a cruz. Seu sacrifício não consta do sofrimento em si mesmo. O Sacrifício coincide com a doação que Jesus, livremente, faz de sua vida, como reflexo de uma entrega anterior: quando se encarnou, foi o Pai quem o presenteou ao mundo como sacramento vivo – isto é realização em nossa carne, em nossa humanidade – da sua vontade de comunhão e redenção. Como dissera Irineu, Deus por meio de Jesus assumiu o que é nosso – a humanidade – para purifica-la da maldade e quando nos devolveu pelo dom de sua vida na cruz, o fez beneficiando-nos com sua divindade. Esta é a vida eterna que desfrutamos já agora porque cremos – isto é, porque aderimos ao passar pelas águas batismais. Este é o divino matrimônio entre Deus e o Povo que a proclamação pascal fará retumbar: “Ó noite de alegria verdadeira, que une de novo o céu e a terra inteira…”

 

Ora, deste modo percebemos que o sentido desta Santa Semana encontra-se longe das lágrimas piedosas por uma dor distante que outrora sofrera o Salvador, representadas nos teatros barrocos de outros tempos. Não estamos vivenciando um “Drama Sacro”. Estamos nos conectando com o Mistério da Vida, penetrando a origem de nossa existência, reascendendo a chama do discipulado e reassumindo as responsabilidades que o Evangelho nos impõe a todos e cada um de nós. E isto o fazemos “HOJE”. Um “agora” que enlaça o “antes” e tem sabor do “depois”. Presente, passado e futuro enlaçados no Dia do Senhor. Dia Eterno que se tornou também nosso, porque a glorificação de Deus pressupõe que o ser humano esteja vivo e disponível para um relacionamento amoroso com ele: “Este é o Dia que o Senhor fez para nós… alegremo-nos e nEle exultemos.”

 

A partir de amanhã, portanto, é preciso que nossos ouvidos estejam bem atentos e nossos olhos bem abertos para captar a passagem do Anjo exterminador. Aquele mesmo que feriu o Egito na defesa dos israelitas até então cativos. Um mensageiro – que Cristo mesmo – dançando sobre a morte, rompendo com os portões do inferno que aprisionaram Adão e Eva, resgatando-nos de nossas trevas interiores e das opressões dos que nos espreitam nas esquinas.

 

Deste modo, permitamos que

 

- a Sexta-feira Santa nos insira no Mistério da Cruz, recordado e realizado em nossa assembleia reunida para rezar as horas de Cristo que, no dizer de Santo Efrém:

 

Levou a humanidade à sua perfeição,

com tudo o que teve de suportar.

Quando era ferido, ensinava,

Quando sofria, fazia promessas,

Foi capturado como ovelha

Para confirmar suas promessas…

 

Aquele que julga os juízes

Foi interrogado e julgado,

No lugar de quem havia feito o mal,

Na verdade no lugar dos ímpios

Foi interrogado o Justo.

 

Quando se entregou a eles,

Para que vivessem por sua morte,

Foi como o cordeiro no Egito,

Que dava vida porque era símbolo do seu Senhor,

Assim também Ele foi morto e em seu amor,

Redimiu os que lhe matavam.

 

Como Adão se extraviou

Pecando no paraíso,

Na terra das delícias,

O justo, em seu lugar,

Foi arrastado ao tribunal,

Na terra dos suplícios.

 

Assim como Adão

Em seu corpo matara aos viventes,

Assim conforme aquele modelo,

Mediante o corpo daquele que a tudo aperfeiçoa,

Os justos alcançaram a perfeição

E os pecadores encontraram misericórdia.

 

O Vitorioso desceu para ser vencido,

Mas não por Satã.

A este o venceu e lhe afogou.

Foi vencido pelos que o crucificaram.

Ele venceu com sua justiça

E foi vencido por sua bondade.

 

Venceu  ao Forte,

E foi vencido pelos fracos.

Crucificaram-lhe, porque se deu a si mesmo,

E foi vencido para assim vencer.

Venceu em suas tentações

E foi vencido por suas entranhas de amor.

 

A Sabedoria que a tudo aperfeiçoava

Que brincava com os menios,

Fazia perguntas aos simples,

E disputava com os escribas,

Deu a todos inteligência,

Em todos semeou a verdade.

 

O Bom, em sua bondade,

Desceu aos maus.

Pagou aquele que não tinha dívidas,

Cobrou o que não tinha emprestado…

 

O Bom assumiu a carga e carregou a outros,

Ambas as coisas são um prodígio:

Enquanto Ele nos carregava com a verdade,

Carregou nossa iniquidade sobre si mesmo.

Os necessitados carregaram com suas riquezas,

E lhe carregaram com os seus pecados.

 

O Bom mostrou seu carinho

Aos crucificadores em seus filhos,

Que ele havia levado nos braços e abençoado.

Um só foi símbolo de todos eles:

Quando recebeu o beijo, morderam-no

Com a boca do ladrão.

 

O erro daquele povo

Radica na esperança,

E tem colocado o olhar nos sacrifícios.

É uma impiedade que,

Depois dAquele Cordeiro de Deus,

Ainda sigam oferecendo sacrifícios.

 

- Permitamos que o Sábado Santo nos interrogue com seu silêncio. Visitemos o sepulcro e preparemos nossos aromas para acolher a vida que nascerá da morte. O segundo dia do Tríduo, tão facilmente esquecido, seja cultivado com atenção devida daqueles que se beneficiaram com a morte do Justo. Último silêncio prévio aos Aleluias e repiques dos Címbalos. Silêncio que cura em nós o mau odor do inferno que criamos, quando damos mais atenção aos pensamentos de nosso umbigo do que ao palpitar do coração de Deus. Neste mesmo sábado silencioso e ardente, desce Cristo aos infernos para terminar de limpar em nós o lixo das desavenças e desafetos, para retirar a cizânia que semeamos em nossa fraternidade, a fim de que a face de Deus brilhe em nós com fulgor e o mundo seja renovado: e o mundo começa em nós! Assim, como dissera São Cirilo de Alexandria, nós que  “trazemos a imagem do homem terreno, suportando a morte que nos ameaçava pela maldição de Deus” sejamos transformados na imagem do “segundo Adão, divino e celestial, que combatendo pela vida de todos, com sua morte corporal redimiu a vida de todos e ressuscitando, destruiu o reino da morte…”

 

- E por fim, cheguemos a bem-aventurada noite da Vigília Pascal, que descerra as cortinas do Paraíso que se perdeu em nós, e cujos passos de Cristo Sofredor e Servo nos fizeram reencontrar. Cheguemos ao encontro outrora marcado pelo próprio Senhor, à beira da fonte, lugar do nosso casamento com Ele… banhados pela sua Luz Radiante e Alegre… nutridos pelo Pão e Vinho que antecipam em nós a vitória da Bondade e da Ternura de Deus. Aportemos junto a Cristo Senhor que, sem navio atravessou as águas do Novo Êxodo, o mar vermelho de sua Paixão e afogou nele o poder dos que já em vida estavam mortos. Exultemos na pureza e na verdade de quem enxerga Deus no rosto dos pobres, sofredores, famintos, sedentos… na face dos que agonizam nos relacionamentos: filial, esponsal, fraterno e eclesial. E, como certamente diria Santo Hipólito de Roma, sejamos nós, a Igreja, aquela mulher que recebeu o anúncio pascal e saiu por primeiro para anunciar ao mundo que a primeira e ultima palavra é: VIDA!

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