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Leitura Orante da Escritura – 02

QUARESMA 2014
Comunidade São Sebastião

Leitura Orante da Escritura – 02

 

A proposta de Guigo é muito simples, mas esconde alguns riscos. O primeiro deles é de esfacelar a experiência de leitura do texto sagrado por meio dos passos ou degraus. A Lectio Divina é, do início a fim, leitura. A meditação, a oração e a contemplação que – no esquema de Guigo – a ela se seguem não podem se tornar um abandono do texto sagrado.

Os Santos Padres, na antiguidade, diziam que a leitura atenta e prolongada do texto bíblico equivale ao diálogo com o Senhor. É Orígenes no século III quem cunha a expressão Lectio Divina para falar deste método de oração comum à toda Igreja:

Dedica-te à lectio das divinas Escrituras; aplica-te a isso com perseverança (…) Entrega-te à lectio com a intenção de crer e agradar a Deus. Se durante a lectio te encontrares com uma porta fechada, suplica e te abrirá aquele porteiro do qual Jesus falou, ‘a quem chama o porteiro lhe abre’ (Jo 10,3). Entregando-te, assim, à Lectio Divina, busca com lealdade e inquebrantável confiança em Deus, o sentido das Divinas Escrituras oculto à grande maioria. Não te contentes com chamar e buscar, porque é absolutamente necessária a oratio (a oração) a fim de compreender as coisas de Deus.

Note-se no texto de Orígenes que a leitura é tomada como oração, ou seja, um diálogo entre parceiros afins, membros de uma Aliança. Há uma cooperação mútua entre quem lê e aquele que tutela os segredos do Reino que a lectio  procura desvendar; mas também é meditação, no sentido de busca da verdade de Deus escondida nas tramas da Escritura. Assim, meditação e oração  não se desvencilham da leitura.     

A questão não é a inviabilidade dos quatro degraus, mas desconectá-los da leitura. É preciso assegurar:

- a Meditação, como busca da Palavra do Senhor, por meio da repetição e ruminação da Escritura (descobrindo suas camadas, suas fontes… inserindo-a no conjunto da História da Salvação);

- a Oração como disposição dialogante mediante a Escritura mesma, permitindo que o Senhor nos alcance onde e como estamos, encontrando-nos despertos e vigilantes, com as lâmpadas de nossas preces acesas;

- a Contemplação como postura que discerne e acende em nós a presença de Deus mediante a Escritura que se funde com aquele que frequenta os textos sagrados.

Para validar a plausibilidade pastoral da lectio divina nos dias de hoje, proponho um esquema vinculado à Liturgia dominical. Lançarmo-nos no contato com o Lecionario e o Missal pode nos ajudar a repropor e assumir a Lectio Divina como normativa da oração cristã, conforme se deu na antiguidade de modo que não imponhamos nossos esquemas pessoais, ideologias e perspectivas particulares, garantindo que a oração seja um exercício de diálogo com o Totalmente Outro (Deus), e não um momento de prática religiosa autorreferencial.   

 

(continua)

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