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CATEQUESES MISTAGÓGICAS

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Ofício Divino – Ficha 02

O Ofício Divino como Obra de Cristo e da Igreja

 

Introdução

 

A reforma litúrgica empreendida a partir do Concílio Vaticano II teve por objetivo fomentar nos fieis o desejo de nutrir sua vida espiritual a partir do Mistério de Cristo celebrado nas assembleias cristãs. Com este intuito, redefinindo a Liturgia como obra sacerdotal de Jesus, reabilitou o povo de Deus ao seu exercício. A Sacrosanctum Concilium leu e interpretou esta obra de Cristo realizada desde a encarnação como a introdução na terra do “hino que eternamente se canta no céu”. Segundo o Concílio, esta obra de nossa redenção – considerada ação sacerdotal de Cristo – foi confiada à sua Igreja para que fosse continuada mediante o louvor e súp´lica não apenas mediante a celebração eucarística, mas “especialmente no desempenho do Ofício Divino.

 

Passo 1: Descrição ritual

 

Conforme Paulo VI a Liturgia das Horas (ou Ofício Divino) é a santificação do dia. Por essa razão é uma ação litúrgica que acompanha o ritmo (o tempo) do ser humano em sua faina diária. Nesta reforma, deu-se destaque – sobretudo – às chamadas “horas principais”: manhã e tarde, Laudes e Vésperas respectivamente. A Igreja se reúne ao amanhecer e ao anoitecer para cantar a obra de Cristo desenvolvida no decorrer do dia na existência dos fieis e assim proceder com a “santificação do dia e de toda a atividade humana.": A estrutura fundamental desta ação eclesial se fundamenta na Revelação que se orienta ao diálogo constante entre Deus e o ser humano. Provê-se, portanto, de maneira ritual, este encontro entre o Pai e sua família, encabeçada por Cristo Jesus, cujo conteúdo é a própria Palavra de Deus testificada nas Sagradas Escrituras e na Sagrada Tradição. Os fieis, reunidos em assembleia pela manhã e pela tarde (se possível) dialogam com o Senhor servindo-se “em grande parte daqueles esplêndidos poemas que os autores do Antigo Testamento compuseram sob inspiração do Espírito Santo": os salmos. Nas Laudes intercala-se um cântico do Antigo Testamento e nas Vésperas um cântico do Novo Testamento é entoado após dois Salmos do Antigo. Também têm lugar nos Ofícios da manhã e da tarde dois cânticos do Novo Testamento, respectivamente o Magnificat e o Benedictus. Outros elementos se unem para estruturar esta oração do Povo de Deus e Corpo de Cristo: as leituras da Sagrada Escrituras (breves ou longas), os Hinos, em geral ligados à antiga Tradição da Igreja, mas também novas composições para este fim são de origem não-bíblica, embora seu conteúdo diretamente se refira à Revelação que a Sagrada Escritura atesta, Antífonas (de origem bíblica ou não).

 

Para uma melhor visualização, percebamos como está estruturada a sequência ritual da oração de Laudes e de Vésperas, segundo a tradição latina:

 

- Invitatório (com ou sem o Salmo):

     De pé, sinal da cruz nos lábios ou no corpo, vênia na doxologia.

 

- Hino

     De pé, em dois coros (antifônicos) ou dialogando entre solista e coro.

 

- Salmodia:

    Sentados, variabilidade de formas para a execução.

 

  • 2 Salmos do AT intercalados por um Cântico do AT (Laudes)
  • 2 Salmos do AT com um Cântico do NT em sequência (Vésperas)
  • Antífonas para todos os casos.

 

- Leitura (longa ou breve)

    Do Ambão (se for na Igreja)

 

- Responsório

    Sentados

 

- Cântico Evangélico:

    De pé e com sinal da cruz no primeiro versículo (como se faz na Eucaristia)

 

  • Antifona + Benedictus (Laudes)
  • Antífona + Magnificat (Vésperas)

 

- Preces

  De pé. Do Ambão ou de outro lugar conveniente.

 

- Oração do Senhor

  De pé, braços abertos.

 

- Oração conclusiva

  De pé.

 

- Conclusão da Hora

  De pé, sinal da cruz.

 

Passo 2: Fundamentação Escriturística

Como se pode perceber na descrição da estrutura ritual, o fundamento do Ofício Divino é a Palavra de Deus testemunhada seja pelas Sagradas Escrituras seja pela Tradição. A Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas é muito clara ao considerar os louvores e súplicas da Liturgia das Horas como realização eclesial da oração de Cristo ao Pai. A partir da encarnação do Verbo, “o louvor a Deus ressoa no coração de Cristo com palavras humanas de adoração, propiciação e intercessão. Tudo isso se dirige ao Pai, como Cabeça que é da humanidade renovada, mediador entre Deus e os homens, em nome de todos e para o bem de todos.

A mesma Instrução apresenta os exemplos de oração de Jesus de Nazaré como fonte para a oração legitimamente cristã, seja naquilo de que participa segundo os costumes da religião judaica da qual participa (nas Sinagogas ou no Templo, por exemplo), seja naquilo que lhe é peculiar em sua atividade cotidiana como Rabi.

A oração é uma prática aprovada e recomendada no Novo Testamento, desde que não seja falsa. Para Jesus, a oração é fundamentalmente diálogo com Deus.

                 

Caso sejam introduzidas finalidades discrepantes deste objetivo, a oração se desfigura, e se alguém finge falar com Deus, incorre em blasfêmia e hipocrisia. Jesus denunciou esta deformação com uma claridade e dureza inigualáveis por aqueles que, com o pretexto da falsa oração, querem eliminar também a oração autêntica.

                      Um exemplo disto é a parábola do fariseu e do publicano.

 

Vejamos o texto:

 

Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros. “Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu de pé, orava interiormente deste modo: ‘Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano; jejua duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos.’ O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!’” Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, o outro não. Pois todo o que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. (Lc 18,9-14)

 

Analisando esta parábola o que poderíamos constatar quanto à reprovação de Jesus da prática oracional do fariseu em questão? Os Santos Padres leram esta passagem e intuíram que o problema do fariseu repousava na postura arrogante e vaidosa de auto justificar-se (Sahdona); quanto ao conteúdo da oração Cirilo de Alexandria comenta que “uma pessoa que se encontra numa batalha, quando cai um outro, não se felicita a si mesmo por ter escapado da desgraça. A debilidade dos outros não é objeto adequado para exaltar os que gozam de boa saúde.” Efren, por sua vez interpreta a passagem dizendo que embora o fariseu falasse coisas verdadeiras sobre si mesmo o fazia movido pelo orgulho, ao contra´rio do publicano que também falou verdades sobre si mesmo, mas com humildade e completa: “Ainda que o fariseu estivesse orando, provocou a cólera de Deus; entretanto, a oração do publicando lhe causou algo diferente da cólera.”

 

Nossa aplicação desta parábola – que se apresenta muito mais como uma narrativa exempla na opinião de Gourgues – ao contexto da Liturgia das Horas se insere numa crítica ao coração e postura do orante quanto está tão cheio de si mesmo, que não deixa lugar para que a Palavra de Deus lhe penetre, santifique e habite. Ora, assim exorta-nos o Apóstolo:

 

A Palavra de Cristo habite em vós ricamente: com toda sabedoria ensinai e admoestai-vos uns aos outros e, em ação de graças a Deus, entoem vossos corações salmos, hinos e cânticos espirituais. E tudo o que fizerdes por palavra ou ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, por ele dando graças a Deus Pai. (Col 3,16-17)

 

Neste ponto, é bom recordar o que nos diz a IGLH n.14:

 

Os participantes da Liturgia das Horas dela hão de haurir, sem dúvida, copiosíssima santificação por meio da salutar Palavra de Deus, que tanta importância tem nela. As leituras são tiradas da Sagrada Escritura, as palavras de Deus transmitidas nos salmos são cantadas em sua presença, e por sua inspiração e impulso elevam-se outras preces, orações e hinos.

Portanto, não somente quando se lê “tudo que outrora foi escrito para a nossa instrução” (Rm 15,4), mas também quando a Igreja ora ou canta, alimenta-se a fé dos participantes e seus pensamentos se dirigem a Deus, para lhe prestarem um culto espiritual e receberem copiosamente sua graça.

 

 

Numa oração semelhante àquela do fariseu narrada por Lucas em sua parábola não há lugar para a palavra de Cristo. Segundo Michel Gourgues, esta narrativa exemplar situa o fariseu em paralelo perfeito com o publicano, mas com atitudes diametralmente opostas. O problema ao qual Jesus alude sobre a postura do fariseu em oração é que ele fia-se em si mesmo e a partir de si julga os demais. Se no plano do relacionamento com os outros ele prefere confiar em si mesmo, conforme indica o versículo introdutório (v. 9), a oração que lhe é tributada se assemelha à sua postura existencial, isto é, embora dê graças a Deus por suas virtudes, na verdade a confiança que deposita é direcionada a si mesmo e não a Deus. A postura e a oração do publicano – e por acréscimo podemos dizer o mesmo de Jesus – ao contrário se fiam somente em Deus e sua misericórdia.

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